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Natep Cultiva #5 - Será que o agro é mesmo pop?

Atualizado: Mai 6

  • Por Gabriella Marinho, Equipe Natep Cultiva, CFM.


Muitas vezes, a ideia de que "o agronegócio alimenta o Brasil" ainda é difundida como verdadeira, mas a real responsável por grande parte da comida que chega na mesa dos brasileiros é a agricultura familiar. Segundo um mapeamento feito pela FAO em 2018, os pequenos agricultores de sistemas familiares produzem mais de 80% da comida do mundo, apesar de, muitas vezes, terem seu trabalho desvalorizado, além de serem os que mais sofrem com a insegurança alimentar devido a relações que serão mais comentadas adiante.


O agronegócio, por sua vez, além de ser um sistema injusto quanto à distribuição de terra e à soberania do agricultor, é responsável pelo desequilíbrio de ecos-sistemas nativos, gera enormes impactos ambientais negativos, diminui a biodiver-sidade, coloca em risco comunidades tra-dicionais e povos locais e aumenta a insegurança alimentar.


O que mantém de pé um modelo agroalimentar tão nocivo ao planeta e o permite ter tanto poder na produção agrícola são as relações empresariais e políticas entre os grandes fazendeiros e figuras importantes tanto nos governos (a chamada "bancada ruralista"), que garantem aos latifundiários altas isenções fiscais, por exemplo, quanto em indústrias “aliadas” do agronegócio, como a química e farmacêutica, responsáveis pela produção de defensivos agrícolas, os famosos agrotóxicos, criando cadeias altamente lucrativas de monopolização e comoditização dos alimentos.


Logo aqui, no país com a maior biodiversidade da Terra, que tem o potencial de ser exemplo mundial na instituição de um sistema mais justo social e ambientalmente, agroecológico, sustentável e regenerativo, essas tentativas são sabotadas pelos benefícios concedidos ao agronegócio, sem haver qualquer vantagem que não seja pessoal recebida em troca.



Agronegócio e injustiças sociais


Como comentado no nosso artigo apresentando a agroecologia, um dos grandes agravantes de injustiças sociais enfrentadas em nosso país é a distribuição desigual da terra, tanto no campo quanto na cidade, que perpetua relações exploratórias de poder de quem tem mais recursos sobre quem menos, gerando conflitos e guerras que devastam as vidas de famílias de trabalhadores rurais nos campos e nas cidades, que lutam pelo seu sustento, pelo seu espaço e pelo solo em que cultivam.


Esses trabalhadores muitas vezes são também integrantes de comunidades indígenas e quilombolas, povos originários que veem seus direitos serem cada vez menos respeitados e suas terras serem negociadas por terceiros, arrancadas deles à força, o que estamos vendo ser cada vez mais comum e, pior, com anuência governamental devido ao desamparo e aos desmontes de órgãos e instituições públicas que deveriam proteger esses povos, suas vidas e sua memória, que é a nossa memória como nação.


Sem segurança e garantias, e com a criminalização de movimentos sociais que lutam para contornar esses problemas e resistir a tais práticas, como o MTST, essas pessoas são colocadas em situação de alta vulnerabilidade financeira, alimentar e territorial, contribuindo para o aumento das desigualdades sociais entre trabalhadores e “donos” de terra, assim como empresários associados, o que só intensifica os problemas estruturais que freiam o desenvolvimento humano e social no país.



Ameaça a culturas nativas e à biodiversidade local


O uso de espécies vegetais geneticamente modificadas é controverso, muitas vezes visto como inofensivo e comentado apenas no âmbito da saúde pública e alimentar. Mas o principal problema gerado por essa prática cada vez mais difundida é cultural, social e ambiental, através da perda da biodiversidade e da identidade ambiental e cultural do país.


Os vegetais transgênicos são espécies geradas em laboratório e comercializadas por grandes empresas, aliadas à indústria do agronegócio. Essas sementes são vendidas em pacotes que já contêm as substâncias químicas necessárias para que o cultivo funcione, obrigando o agricultor a fazer uso das mesmas e plantar em monoculturas, já que nem todas as espécies sobrevivem aos mesmos agrotóxicos, pois são desenvolvidas para resistir a seus respectivos pares. A longo prazo, essa prática ainda agride o solo e torna mais difícil sua recuperação, sendo muito mais complicado tentar plantar outras sementes não alteradas ou implementar outros sistemas de cultivo.


Além disso, poucas empresas dominam o “mercado” de sementes transgênicas, que são mais baratas de serem adquiridas (em grande parte pelos benefícios fiscais já comentados), fazendo o agricultor acabar aderindo às mesmas pelo baixo custo aparente e pelas poucas alternativas que essa cadeia industrial estabelece. O resultado é uma relação de dependência dos produtores com tais empresas, uma vez que a semente modificada não pode ser cultivada novamente após a colheita, pois não é fértil, obrigando o agricultor a estar sempre comprando um novo pacote para um novo plantio. Aqui, quem produz não é soberano sobre seu produto, e muito menos quem consome sobre seu alimento.


Com o cultivo cada vez mais amplo e silenciosamente forçado dessas espécies, as sementes crioulas, adaptadas ao longo de gerações por agricultores, vão perdendo gradativamente seu espaço, estando cada vez mais ausentes e dependendo apenas de seus guardiões e da comercialização local para se manterem vivas. Isso traz impactos absurdos para a nossa biodiversidade nativa e riqueza ambiental, que vai sendo colocada como pouco importante, em último plano, negligenciando a memória e a resiliência de pessoas e povos que lutam tanto para mantê-la.



Danos ao meio ambiente


A produção agrícola convencional é feita em monocultivos de larga escala, gerando impactos que contribuem fortemente para o agravamento da enorme crise socioambiental vivida atualmente. A quantidade de terra necessária para a produção de monoculturas de soja, milho, trigo, algodão, dentre outros cultivos, além da criação de pasto para gado, faz com que grandes áreas sejam desmatadas. Os resultados finais dessa prática geram um desequilíbrio enorme aos ecossistemas locais, já que não é um processo natural (ou seja, a área não vai se regenerar sozinha com facilidade e espontaneamente), e o procedimento ainda é feito com queimadas forçadas, que se alastram por regiões enormes, causando perdas irreparáveis a biomas importantes e diminuindo a qualidade de vida de moradores locais, devido às altas temperaturas resultantes e geração de fumaça; um exemplo do prejuízo ambiental que tal ação gera pôde ser muito bem representado em 2020, com os incêndios no Pantanal que tomaram proporções jamais antes vistas, causando uma perda irreversível de mais de 25% do bioma (falamos um pouco sobre esse tema aqui).


Além disso, o uso crescente de agrotóxicos, que fazem do Brasil o maior consumidor dessas substâncias no mundo (muitas, inclusive, proibidas em diversos países), é altamente poluente para o solo e as águas de regiões no entornos dessas áreas de cultivo, arriscando a saúde ambiental desses locais e, assim, de animais humanos e não-humanos que ali vivem, como populações ribeirinhas, que são muito afetadas pela contaminação de sistemas aquáticos, prejudicando sua saúde e seu sustento.


Outro efeito negativo é proveniente da pecuária extensiva, que gera um volume enorme de gases do efeito estufa (é responsável por cerca de 60% das emissões globais), tanto devido à criação do gado em si quanto ao desmatamento e à manutenção das áreas destinadas à produção de cereais que irão virar ração animal.



Problemas à saúde coletiva


O uso de agrotóxicos em vegetais destinados à alimentação e seu possível impacto à saúde também é muito debatido. Por um lado, os defensores dizem que o uso dessas substâncias é o que torna possível a agricultura com alta produtividade, o que já foi mostrado ser mentira em diversos estudos sobre sistemas agroecológicos e agroflorestais (como diz esta reportagem, que indica que agroflorestas implementadas na Amazônia têm produtividade e rentabilidade médias maiores que os monocultivos de soja, por exemplo). Por outro, cientistas da área da saúde defendem que estudos sobre efeitos cumulativos de agrotóxicos ainda são escassos e precisam ser realizados mais vezes e em maior escala, para que saibamos quais os riscos reais de nos alimentarmos a longo prazo com comida produzida com uso destas substâncias, já que são compostos que se acumulam em nossas reservas de gordura, levando um longo tempo para serem eliminados.


Ainda assim, alguns estudos já realizados com trabalhadores de plantações que usam “defensivos agrícolas” concluíram que parte significativa deles são afetados por doenças decorrentes dessa exposição (como este e este), mostrando uma relação prejudicial à saúde que precisa ser levada em consideração para planejamentos públicos de bem-estar coletivo.


Outros fatores sociais prejudicados pelo agronegócio são a soberania e a segurança alimentar, pilares muito importantes em busca da autonomia e do direito à saúde da população. O monopólio empresarial sobre as espécies vegetais comercializadas e, assim, consumidas resulta em um empobrecimento nutricional da comida que chega ao nosso prato, pois gera uma variedade alimentar muito aquém do potencial que a natureza nos oferece.


Além disso, a industrialização da dieta global coloca as necessidades de quem produz e de quem consome nos últimos lugares da fila de prioridades, buscando sempre o lucro antes da qualidade do alimento fornecido, culminado em uma padronização dessa dieta, cada vez mais baseada em produtos processados e ultraprocessados.


Sistemas agroalimentares como a agroecologia, a agrofloresta, a permacultura e a agricultura sintrópica, por exemplo, fortalecem a soberania alimentar e a colocam como ponto central a ser pautado para enfrentar esse panorama, incentivando os pequenos agricultores e buscando valorizar e exaltar nossa natureza.




Dicas para saber mais sobre o assunto


A seguir, há algumas sugestões para você se aprofundar e entender melhor esse tema, além dos motivos pelos quais o agronegócio precisa ser substituído por outros modelos de agricultura que priorizem a regeneração, não a destruição em nome de uma maior produtividade fictícia:



Documentário "Sem Clima" (YouTube)


Neste documentário, feito pelo observa-tório De Olho Nos Ruralistas, é mostrada a relação ampla de poder que o agrone-gócio desempenha no sistema político brasileiro, e o quão responsável é a ban-cada ruralista pelo agravamento da crise climática e por leis e projetos que des-matam o meio ambiente e tiram direitos de povos indígenas. Assista aqui.



Podcast "Jornal do Veneno" (Spotify)


No podcast "Jornal do Veneno", a jornalista Juliana Gomes discute e informa sobre diversos temas relacionados à indústria alimentícia, incluindo sua relação com o agronegócio e diversos aspectos envolvidos na mesma. Juliana também é idealizadora do projeto Comida Saudável Para Todos, onde mostra como se alimentar pode ser acessível e saudável. Ouça os episódios aqui.




Contagem Regressiva para a Extinção


Neste PDF montado pelo Greenpeace, é mostrado como o modo produtivista do agronegócio, em especial a agropecuária, está desmatando cada vez mais rapidamente o meio ambiente e destruindo a floresta mais biodiversa do mundo. Acesse o arquivo clicando aqui.



Artigo sobre a Agroecologia na América Latina


Já neste artigo, pesquisadores e cientistas em agroecologia na América Latina se reúnem para analisar como ecossistemas conseguem resistir a eventos climáticos severos, discutindo sobre a resiliência socioecológica através da agroecologia. Leia clicando aqui.




Como ajudar pequenos e médios agricultores?


Apoiando iniciativas e articulações de produção e comercialização de produtos oriundos da agricultura familiar e de base agroecológica, seja financeiramente ou participando em ações. Abaixo, listamos alguns grupos atuantes neste cenário aqui no estado do Rio de Janeiro, mas você pode pesquisar sobre outros lugares aqui.


• PRODUTOS DA GENTE - articulação de iniciativas agroecológicas e da agricultura familiar no estado (mais informações pelo Facebook ou pelo Instagram @produtosdagente).


Alguns grupos que fazem parte:

- Terra Crioula (ig: @terra_crioula);

- Armazém do Campo (Tel: (21) 99702-9303, ig: @armazemdocampo.rio);

- Empório da Chaya (Tel: (21) 97349-2960, ig: @emporiodachaya);

- Feira da Agricultura Familiar UFRRJ (ig: @feiraufrrj);

- Feira Agroecológica de Campo Grande (ig: @feiraagroecologicacg);

- Feira da Roça de Vargem Grande (ig: @feiradaroca);

- Mercado Fundição (ig: @mercado.fundicao);

- Feira Agroecológica da Freguesia;

- Feira da Agricultura Familiar de Magé;

- Feira Orgânica Bangu Shopping;

- Feira Agroecológica e Cultural da Ilha do Governador.


• REDE ECOLÓGICA DO RIO – articulação entre produtores agroecológicos do estado (informações pelo site).


Alguns exemplos que fazem parte:

- Centro de Integração Serra da Misericórdia - CEM (ig: @cem_serra_misericordia);

- Assentamento Terra Prometida;

- Associação de Agricultores Orgânicos Pedra Branca;

- AGROVAGEM;

- Casa da Floresta;

- Vale Ecológico;

- Sítio Santa Bárbara;

- COOPAN.


ARRANJO LOCAL DA PENHA (ig: @arranjolocalpenha).


PROJETO CASA UFRJ (ig: @projetocasaufrj).


A COLHEITA (ig: @somosacolheita).


COMIDA DA GENTE [COMPRA ONLINE] (ig: @comidadagente).


SÍTIO DOS SONHOS (ig: @sitiodossonhos).


CAAETÉ ORGÂNICOS (ig: @caaeteorganicos, Tel: (21) 99538-5604).



Mesmo durante a atual pandemia, o campo não parou e continuou produzindo para o Brasil não passar fome; ainda assim, dentre os trabalhadores rurais, os da Agricultura Familiar e de base agroecológica foram mais afetados, principalmente no início, devido à diminuição de feiras e circulação dos consumidores, além de já serem menos assistidos por programas governamentais. Assim, diversas iniciativas foram e ainda estão sendo feitas por algumas dessas organizações, como o CEM, o Arranjo Local da Penha, o Projeto CASA e a Produtos da Gente, ajudando tanto os agricultores e agricultoras quanto os consumidores; isso só evidencia a importância de tais estruturas de apoio, que devem ser devidamente valorizadas e incentivadas.




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- FONTES CONSULTADAS NA PRODUÇÃO DESTE POST -


Década da Agricultura Familiar da ONU, uma oportunidade extraordinária para avançar na erradicação da fome e da pobreza, Food and Agriculture Organization of the United Nations - FAO, 2018. Disponível em: <http://www.fao.org/brasil/noticias/detail-events/en/c/1103086/>. Acesso em Ago. de 2020.


Reflexões sobre uma agricultura de guerra feita no Brasil, Ademir Antônio e Erahsto Felício, Teia dos Povos, 2020. Disponível em: <https://teiadospovos.org/reflexoes-sobre-uma-agricultura-de-guerra-feita-no-brasil/>. Acesso em Dez. 2020.


Guardiãs e guardiões de sementes crioulas partilham grãos como forma de resistência, Lu Sudré, Brasil de Fato, 2019. Disponível em: <https://www.brasildefato.com.br/2019/08/31/guardias-e-guardioes-partilham-sementes-crioulas-como-forma-de-resistencia>. Acesso em Ago. de 2020.


Altieri, Miguel. Agroecologia: a dinâmica produtiva da agricultura sustentável. – 4.ed. – Porto Alegre : Editora da UFRGS, 2004.


Contagem Regressiva para a Extinção: o que será necessário para que as empresas tomem uma atitude? – Greenpeace Internacional, 2019.



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