Buscar
  • Coletivo Força Motriz

Natep Cultiva #1 - Agroecologia: uma ferramenta de luta popular

  • Por Eduarda Barros, Gabriella Marinho, Geórgia Liporace e Leonardo Albuquerque, Equipe Natep Cultiva, CFM.


Um dos maiores problemas enfrentados em nosso país é a injusta distribuição da terra, tanto no campo quanto na cidade, o que ajuda a sustentar as relações exploratórias de poder de quem tem mais recursos sobre quem menos. No campo, isso é mantido através do agronegócio, responsável por desmatar grandes áreas verdes e diminuir cada vez mais os territórios de povos indígenas e comunidades locais, contribuindo enormemente para o colapso climático, a perda da biodiversidade e a insegurança de maneira geral de povos tradicionais, gerando diversos impactos socioculturais negativos.


Se apresentando como um contraponto a este modo de produção tão nocivo, a Agroecologia busca diminuir e reverter esses impactos por propor um sistema alimentar de base regenerativa, recuperando o solo, protegendo o território e a natureza e assegurando a soberania alimentar de quem produz e quem consome. É um campo multidisciplinar, que envolve a atuação de agricultores rurais e urbanos, culinaristas, nutricionistas, engenheiros de todas as especialidades, arquitetos, designers, biólogos, químicos, assistentes sociais e diversos outros profissionais, inclusive quem é apenas entusiasta.


Com auxílio da ciência e tecnologia, busca aplicar conhecimentos tradicionais para resgatar um modelo produtivo que respeita não apenas a terra, mas as pessoas responsáveis pelo plantio e, assim, permitir que comida de qualidade chegue à nossa mesa; não é apenas uma alternativa às formas "convencionais" de produção de alimentos, sendo muito im-portante a vários movimentos populares.



Neste artigo, temas centrais nos quais a Agroecologia se baseia serão abordados, e alguns deles serão mais discutidos em posts futuros, visando mostrar como essa prática pode e deve ser considerada uma ferramenta central na luta por uma sociedade igualitária.


Comunicação e cultura

Na Agroecologia, o resgate de saberes e experiências aplicados nas práticas de agricultura tradicionais é extremamente importante. Além de manter viva as culturas e tradições de povos originários, os sistemas agroecológicos também têm como característica a valorização dos laços de solidariedade e da participação da comunidade local, incentivando a integração comunitária e o desenvolvimento sociocultural conjunto.


Economia Solidária

A Agroecologia incentiva a articulação entre produtores locais e consumidores para troca de sementes e mudas, conhecimentos e formação de redes para comercialização do que é produzido, aproximando a produção e o consumo e fomentando sistemas agroalimentares localizados que fortalecem todos que participam do ciclo produtivo, além de produtos sazonais e locais, o que é cultural e ambientalmente sustentável.


Se baseando na solidariedade e na segurança de retorno justo ao produtor, ainda causa impactos ambientais e energéticos muito menores na distribuição e abastecimento de alimentos, pois o tempo e a distância de deslocamento acabam sendo menores e mais eficientes.


Saúde Coletiva

Comentando sobre como a Agroecologia é um ponto crucial na luta pela saúde das populações rurais e urbanas, a pesquisadora sobre efeitos dos agrotóxicos Raquel Rigotto diz que "saúde é ponte entre agroecologia e sociedade". Além de usar uma base agrícola que rechaça o uso de agrotóxicos, resultando em alimentos sem veneno, essa prática permite que os vegetais cultivados recebam todos os nutrientes necessários para seu crescimento adequado sem prejudicar o solo e os rios, tornando-os de fato mais saudáveis e menos suscetíveis a doenças, permitindo que todo o ecossistema do local de cultivo esteja em equilíbrio.


Justiça ambiental

Como dito no início do artigo, a produção agrícola convencional, com monocultivos em larga escala, gera impactos muito agravantes da enorme crise socioambiental vivida atualmente; a disputa constante com grandes fazendeiros e a injusta distribuição da terra arrisca comunidades tradicionais a perderem cada vez mais o direito a seu espaço e a manter sua cultura.


O modelo agroecológico é baseado na biodiversidade, e além de melhorar a qualidade do solo e a distribuição de nutrientes às plantas, promove a utilização de sementes crioulas, que foram adaptadas ao longo de anos por gerações de agricultores e agricultoras, contribuindo para manter a sociobiodiversidade e a cultura dos povos e para a conquista da soberania alimentar.


Direito à cidade

Esse modelo agrícola não se restringe apenas ao meio rural, e podendo e devendo ser aplicada nas cidades, onde o espaço para plantações populares e comunitárias é, muitas vezes, limitado. Ao mesmo tempo, moradores dos grandes centros urbanos, especialmente os das periferias, sofrem com questões como alto índice de poluição do ar e das águas e falta de acesso a alimentos nutricionalmente adequados, culminando em um grande consumo de alimentos processados e ultraprocessados.


Deste modo, a agricultura urbana regenerativa deve ser ponto central para se pensar no desenvolvimento das cidades, tornando-as mais justas, eficientes e integradas ao meio ambiente, já que não há qualidade de vida sem segurança alimentar e ambiental.


Soberania Alimentar

Soberania Alimentar é o direito que todos os povos devem ter de decidir sobre suas políticas de agricultura e alimentação, assegurando a capacidade de cada nação de produzir seus alimentos básicos com respeitos à suas particularidades e diversidades. Entender a Agroecologia por esse viés evidencia o papel fundamental dos agentes sociais locais, pois os movimentos sociais rurais abraçam o conceito de SA como combate ao método neoliberal, que tenta vender a ideia de que um sistema injusto é capaz de solucionar a fome no mundo, o que nitidamente não se sustenta.


A dieta global atual resulta de uma cadeia de consumo globalizada e industrializada, na qual nem os produtores nem os consumidores são protagonistas. O regime alimentar é cada vez mais controlado por interesses econômicos, o que gera a commoditização da agricultura e uma padronização da alimentação global pautada no alto consumo de alimentos processados.



O fortalecimento da SA através da Agroecologia é muito importante para enfrentar esse panorama, propondo romper essa lógica destrutiva através do incentivo à agricultura familiar e local, que valoriza a riqueza vegetal de cada região.


Feminismo

Por fim, é importante evidenciar uma relação extremamente potente e importante para a prática agroecológica: a relação entre a Agroecologia e os feminismos.

Com vínculos comunitários, as mulheres agricultoras ressignificam suas vidas e saberes e encontram abrigo nas culturas, se reconstruindo através dos olhares mais diversos sobre o que as aflige, e ainda mais sobre os que as une. É nas vivências agroecológicas que elas enxergam grande diversidade de formas de resistência, para esta se sobrepor a ciclos de violências que as afetam de diferentes formas.



Na Agroecologia, as mulheres são as protagonistas do movimento, difundindo saberes populares e sobre o cuidado da terra, fortalecendo as lutas pelos seus direitos e de seus familiares e conquistando suas independências social e financeira.



A Agroecologia é muito mais do que o que se vê nos plantios, e vai muito além da terra em que se planta e da planta que se come. É estratégia de luta popular, de resistência e de visibilidade a povos que seguem sendo negligenciados, mas que precisam ser ouvidos, já que são quem de fato constrói e alimenta esse país.


Não deixa de acompanhar as nossas redes sociais para mais conteúdos como este! 🤲🏽🌿

Instagram: @coletivoforcamotriz

Facebook: @coletivoforcamotriz

Youtube: Coletivo Força Motriz



- FONTES CONSULTADAS NA PRODUÇÃO DESSE POST -

CAPORAL, F. R. (org.) Agroecologia: uma ciência do campo da complexidade, Brasília, DF, 2009.


Altieri, Miguel. Agroecologia: a dinâmica produtiva da agricultura sustentável. – 4.ed. – Porto Alegre : Editora da UFRGS, 2004.


Rabello, Diógenes; Mesquita da Silva, Hellen. Agroecologia e soberania alimentar: conflitos e alternativas para o desenvolvimento no campo no Pontal do Paranapanema (SP), 2018.


Guardiãs do Território: Agroecologia e Resistência no estado do Rio de Janeiro. – Rio de Janeiro : Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul (PACS), 2018;


Sem Feminismo, não há Agroecologia. – Rio de Janeiro : Associação Nacional de Agroecologia (ANA), 2018.


Redes de Agroecologia como uma alternativa à agricultura industrial - Entrevista especial com Paulo Petersen, UNISINOS (ihu.unisinos.br), 2018.


Saúde é ponto entre Agroecologia e Sociedade, Hara Flaeschen., ABRASCO, 2019. Disponível em: <https://www.abrasco.org.br/site/sem-categoria/a-saude-e-ponte-importante-entre-a-agroecologia-e-a-sociedade-diz-raquel-rigotto/39817/>. Acesso em 23 de Jun. 2020.



Posts recentes

Ver tudo