Buscar
  • Coletivo Força Motriz

As Terceirizações e a Super Exploração do Trabalho

Atualizado: 9 de Jun de 2020

O que a duzentos anos criou a escravidão, hoje cria e defende as terceirizações como forma de flexibilizar os direitos trabalhistas, compactar salários e impedir a mobilização e organização política das trabalhadoras e trabalhadores, ameaçados constantemente pelo fantasma do desemprego.

“AÍ FICA A PERGUNTA,O TEMPO DA ESCRAVIDÃO VOLTOU?”


Essa é uma pergunta que, embora preveja um fatídico presságio histórico, infelizmente é ouvida mais vezes do que gostaríamos que fosse. E não apenas ouvida, trazida pelos ventos que facilmente vêm e se perdem, mas perguntada, cada vez mais questionada e relembrada, uma vez que representa o constante estado de exploração das trabalhadoras e trabalhadores brasileiros.

O tempo passa e o mundo evolui rápido, mas nem sempre pra melhor. A hegemonia que a duzentos anos necessitava da escravidão pra garantir um processo de acumulação que mantivesse seu status quo de privilégios teve que se adaptar às mudanças inerentes à evolução histórica e reinventar sua estrutura de opressão, buscando sempre o nível máximo de exploração que cada época oferecia, e permitia. O que a duzentos anos criou a escravidão, hoje cria e defende as terceirizações como forma de flexibilizar os direitos trabalhistas, compactar salários e impedir a mobilização e organização política das trabalhadoras e trabalhadores, ameaçados constantemente pelo fantasma do desemprego. Não é a toa que hoje os grandes donos de empresas são os descendentes diretos dos donos de escravos; os tempos mudam, as estruturas mudam, as caras mudam, mas os personagens são sempre os mesmos.


As terceirizações se tornaram uma prática de larga escala no mundo a partir do nascimento das políticas neoliberais no final do século passado. Com a crise do modo de produção fordista e do modelo de Estado keynesiano, a nova ordem mundial era flexibilizar contratos e fragmentar o processo produtivo, tanto espacialmente quanto organicamente. As grandes empresas perceberam que alocar suas indústrias em terras mais baratas, com mão-de-obra abundante, e pagar para outras empresas cumprirem algumas funções específicas é extremamente lucrativo, e ainda permite um bônus de aumento da exploração dos trabalhadores. Dois coelhos com uma cajadada só. Tal prática, que só faz sentido histórico de existir numa época de Estado neoliberal, completamente aberto para a intervenção empresarial via lobby e financiamento, se propagou das empresas privadas para instituições públicas, como empresas estatais, universidades e hospitais, facilitando a corrupção e o desvio de verbas, e gerando um quadro caótico para a situação dos trabalhadores que vêm seus direitos rechaçados pelo Estado de mãos dadas com o capital.



No Brasil e na América-Latina, esse processo apresentou um agravante ainda maior, causado pelas particularidades históricas do continente dado o seu papel na divisão internacional do trabalho. O conceito de superexploração do trabalho, criado pelo sociólogo Ruy Mauro Marini, um dos expoentes da Teoria Marxista da Dependência, explica como as condições extremamente precárias dos trabalhadores latino-americanos estão intrinsecamente ligadas ao estado histórico de dependência e de troca desigual de bens primários por produtos de alto valor agregado, o que leva os capitalistas a buscar formas de compensação na forma de mais exploração do trabalhador. Além disso, pela presença nesses países de uma extensa massa de mão-de-obra e de uma produção voltada para a demanda internacional, se fez possível elevar essa exploração a um nível acima do máximo que os trabalhadores poderiam suportar reproduzindo seu modo de vida, com trabalhos fisicamente e psicologicamente extremamente desgastantes e salários abaixo do necessário para sobreviver, obrigando muitas vezes os trabalhadores a ter dois ou três empregos.

Nesse contexto, as terceirizações entram como uma forma de facilitar a superexploração, permitindo baixar ainda mais os salários, retirar direitos e intensificar o trabalho, uma vez que deixam de existir vínculos empregatícios entre a empresa ou instituição que contrata os serviços e os trabalhadores, jogando uma cortina de fumaça na legislação trabalhista e dificultando os recursos contra ameaças e abusos.

Portanto, não é a toa a sensação sempre presente nos trabalhadores que a escravidão não acabou, porque embora ela não exista mais caracterizada da mesma forma, a estrutura de opressão continua a mesma, comprometida só e apenas só com o permanecimento dos atores nas mesmas posições no grande palco social; a senzala e a casa-grande; a favela e o bairro chique; o trabalho e o capital.




Embora hoje o trabalho, de forma geral, não seja mais fisicamente forçado, ainda na estrutura escravista, como o escravo era visto como uma propriedade, havia um interesse que este se mantivesse vivo e disposto pra trabalhar o máximo de tempo possível, pois sua morte significaria um prejuízo para o seu senhor. Assim, havia um nível máximo de exploração que era possível trazendo lucro, sendo que, além dele, não seria mais interessante para o senhor. Hoje esse limite não existe mais, pois não importa o tempo que o trabalhador dure apto a continuar trabalhando, uma vez que os altos níveis de desemprego na forma de exército industrial de reserva e uma enfraquecida legislação trabalhista permitem que ele seja rapidamente substituído, sem perdas consideráveis para o capitalista. Acabou-se a escravidão, mas intensificou-se a superexploração, ocultada sobre uma bela ilusão de meritocracia e liberdade forjada para esconder essa verdade histórica.

Dessa forma, o tempo passa, o mundo evolui, e reforça-se cada vez a necessidade da luta organizada do proletariado contra as estruturas que são construídas sobre seus braços e pernas em nome dos privilégios do capital, que rouba, mente e assassina pra manter seu poder e status. A necessidade da organização política, que é o único caminho para a construção de uma nova hegemonia e um novo projeto civilizatório, comprometido com outros valores e outros ideais, no qual a liberdade não seja mais exploração, e o trabalho não seja mais tortura.

Texto escrito por Pedro Enrique Monforte, militante do coletivo Força Motriz e das Brigadas Populares.

10 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo